O paradoxo: vagas abertas e profissionais sem trabalho
O Brasil vive um paradoxo inquietante: de um lado, empresas reclamam da dificuldade em encontrar talentos; de outro, profissionais qualificados ou em busca de recolocação passam longos períodos sem oportunidades. Ao mesmo tempo, milhares de vagas de entrada seguem abertas por semanas, apesar de existirem pessoas disponíveis para ocupá-las.
Como é possível ter falta e excesso de profissionais ao mesmo tempo? Para entender esse cenário, é preciso enxergar três movimentos simultâneos que estão remodelando o mercado de trabalho no país e o papel de cada pessoa e organização dentro desse contexto.
Vagas de baixa qualificação e a rejeição crescente a elas
Nas grandes cidades brasileiras, a área de serviços continua sendo o núcleo da geração de empregos. Restaurantes, mercados, logística, atendimento, cuidados pessoais, limpeza: são setores que absorvem milhares de trabalhadores e seguem crescendo.
O problema é que as vagas existem, mas muita gente não quer ocupá-las. Isso acontece por uma combinação de fatores que vão desde preferências pessoais até questões econômicas e sociais.
Preferência pela informalidade
Aplicativos de entrega, trabalho por conta própria e bicos oferecem mais flexibilidade, entrada imediata, possibilidade de ganho diário e ausência de hierarquia direta. Para muitos, isso pesa mais do que a estabilidade do emprego formal.
Salário versus custo de vida
Especialmente nas capitais, um salário inicial formal muitas vezes não cobre o básico. Isso desestimula a formalização, principalmente quando o trabalho informal aparenta entregar ganhos imediatos semelhantes ou superiores.
Dependência (ou necessidade) de programas sociais
Programas de transferência de renda são fundamentais no combate à pobreza, mas em alguns casos criam um limiar psicológico: trabalhar formalmente por um salário inicial baixo vale mesmo a pena? Essa conta nem sempre é óbvia para quem está na ponta.
O resultado é um cenário de vagas abertas, pouca adesão e alta rotatividade, com empresas constantemente contratando de novo para as mesmas posições.
O outro extremo: escassez de talentos em áreas estratégicas
Enquanto sobram candidatos para funções de entrada, falta gente em áreas técnicas e estratégicas — especialmente em tecnologia da informação, engenharia de dados, automação, manutenção especializada e logística avançada.
Não é exatamente por falta de escolas ou cursos, mas por um problema de sincronia entre o que o ensino oferece e o que o mercado realmente demanda.
- Currículos defasados e com pouca prática.
- Distanciamento entre instituições de ensino e empresas.
- Expectativas irreais de muitas organizações, que buscam profissionais juniores com competências de sênior.
- Profissionais qualificados buscando oportunidades no exterior, presenciais ou remotas.
O resultado são vagas estratégicas que demoram meses para serem preenchidas, com impacto direto em projetos, crescimento e competitividade das empresas.
A pressão sobre profissionais qualificados: salários menores e pejotização
Paralelamente, há um movimento silencioso, mas profundo, que atinge profissionais mais experientes: muita gente tem aceitado salários abaixo do que já ganhou e visto suas áreas migrarem para modelos de contratação como pessoa jurídica (PJ), com menos proteção e mais incertezas.
Isso acontece por fatores como excesso de formados em determinadas áreas (como administração, direito e comunicação), reestruturações corporativas, redução de equipes e a adoção de formatos de contratação mais baratos para o empregador.
O resultado são profissionais competentes, muitas vezes subaproveitados e inseguros em relação ao futuro — o que impacta engajamento, saúde mental e qualidade das entregas.
O que esse cenário significa para as empresas?
Estamos diante de um desalinhamento estrutural entre o tipo de vaga que cresce, o tipo de qualificação que existe, o tipo de carreira que as pessoas buscam e o tipo de expectativa que as empresas mantêm. É um problema sistêmico, mas também uma oportunidade de reorganização.
1. Repensar a proposta de valor para cargos de entrada
Salário importa, mas não é o único fator. Jornada adequada, ambiente seguro, perspectiva real de crescimento e reconhecimento cotidiano têm peso decisivo na permanência das pessoas e na redução do turnover.
2. Ampliar o funil de recrutamento em áreas técnicas
Buscar talentos em outras regiões, aceitar perfis em formação, criar trilhas internas de capacitação e construir parcerias com instituições de ensino ajuda a formar profissionais em vez de apenas tentar encontrá-los prontos.
3. Ajustar expectativas
Um profissional júnior não é um sênior. Insistir em um perfil “perfeito” pode significar meses com a vaga aberta, sobrecarga do time atual e custos ocultos mais altos do que investir em alguém em desenvolvimento.
4. Investir na marca empregadora
Candidatos escolhem empresas — inclusive os de baixa qualificação. A percepção de respeito, coerência entre discurso e prática e processos de seleção humanos faz diferença na hora de decidir onde trabalhar.
E o que tudo isso significa para os profissionais?
Para quem está em busca de uma chance, entender esse contexto ajuda a não interpretar dificuldades como fracasso pessoal, mas como parte de um momento de transição mais amplo no mercado de trabalho.
- Desenvolver competências que o mercado realmente recompensa, como capacidade de aprender rápido, comunicação, adaptabilidade e alfabetização digital — mesmo em vagas operacionais.
- Ajustar expectativas de entrada, compreendendo que começar em um ponto mais baixo não define onde se pode chegar.
- Estar atento às oportunidades reais, avaliando não apenas o ganho imediato, mas também possibilidades de aprendizado, networking e crescimento futuro.
Vivemos um momento de reorganização, não um julgamento definitivo sobre o valor de cada profissional. A forma como cada pessoa se posiciona, aprende e se adapta pode abrir caminhos mesmo em cenários mais desafiadores.
Conclusão: é hora de reconstruir pontes
De um lado, empresas desesperadas por profissionais. De outro, profissionais desesperados por uma chance. A ponte entre esses dois mundos passa por clareza, formação adequada, comunicação transparente, revisão de expectativas e processos de atração mais humanos.
Empresas que compreenderem esse cenário tendem a contratar melhor. Profissionais que entendem essa dinâmica se posicionam melhor. E quem atua no meio do caminho — como consultorias, plataformas e assessorias — tem um papel fundamental na reconstrução desse diálogo.
Curadoria de
Wagner Rodrigues
Consultor de RH
